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Projetos Pessoais






Projetos Pessoais


1. 
Às vezes eu escrevos alguns desabafos, pensamentos, mágoas e/ou sentimentos.
Coloco alguns dos meus favoritos aqui.



Comi uma constelação.
Entre acasos e desencontros notamos o essencial à vida.
A tranquilidade para seguir em paz em meio à tempestade de meteoros
entre satélites programados para estar onde não deveriam chegar.

Olha para cima e observa o espetáculo de luzes.
Parecem dançar lentamente observadas das raízes terrenas.
Mas de lá, anos-luz de distância, seguem nossa mesma velocidade.

Ve.lo.ci.da.de: catalizador da balada estelar que nos permitimos mergulhar com ou sem dança.
Na pista, os corpos celestes se exibem com cascas.
É disso que a galáxia se compõe: admiradores de beleza rasa.
Suas composições, alinhamentos pouco significam diante daqueles que só querem observar um planeta bonitinho.
Na ressaca do cósmico pífio,
Corto, pico, mastigo e engulo a galáxia.
Na digestão, entendimento:

São só pedaços de pedra atrás de luz própria.


GH.


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Olhando para o horizonte, parada na frente de um muro, tentou imaginar.
Lembrou da última praia que foi, onde só apreciou o anoitecer enquanto a Natureza lhe adentrava.

Pensou no quanto a solidão lhe incomodava mas quanto mais ainda perturbadora era presença daqueles mesmos.
A era digital lhe engoliu e ela não conseguir digerir enquanto essa fagocitose acontecia.
A gastrite era nela, no estômago dela e não da sociedade que insistia em tentar incluí-la.

Desconforto onipresente.
Descabimento constante.
Satisfação forçada pela ausência de portas que pudesse abrir.
Limbo.

Sem conseguir ser englobada, a membrana plasmática entre ela e o restante era quase sólida.
Quase.

Vezes ou outras chegou a pertencer.
A cumprir os padrões e por um triz num instante de segundo teria atingido a felicidade.
Não.
O acaso aparecia toda noite lhe recordando os velhos conselhos do parente desajustado:
quem vê as catracas invisíveis desta vivência em conjunto não derruba.
Só ultrapassam a fronteira os cegos de inquietações.
O preço da aquietação era de um valor que lhe faltava no ser.

E lá ela ficava, permanecia.
Inerte.
Limbo indigerível da sociedade dos desajustados.


GH.


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É escondidas que revelamos nossos segredos.
Entre portas de carros ou quatro paredes que nos despimos das catracas invisíveis da padronagem social e nos permitimos ser, achar, julgar, errar, mentir e desmentir.

Não acreditamos no belo.
Não cremos em pureza muito menos em fidelidades desleais.
Porque foi fazendo arte que nos encontramos, que nos conhecemos.

Travessuras de meninas mimadas que só querem jogar charme ao vento para conseguir o lucro de olhares alheios. Olhares que nos desejam e invejam ao mesmo tempo por termos tão evidente na nossa loucura a maior das sanidades: nada é pra sempre.

Sabemos, sensatas, que nossos sentimentos são mesquinhices humanas e lidamos com isso.
Não, não somos vítimas.
Somos as predadoras dessa panela que e em fogo baixo, bem dos mornos, cozinha e ebuli convívios pífios embalados por doses de catuaba barata, cigarros, putas e viados.

GH.


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Ainda, depois de todo esse tempo, ainda acordo e sinto falta daquele conforto.
As partes ruins foram realmente ruins.
Não me engano pensando não acabou.
Está acabado sim.
Eu também não aguentava mais aquela agonia e dúvidas constantes.
Mas é que as partes boas eram tão boas…

Eu não lembro mais do seu cheiro, mas lembro de como ele fazia eu me sentir bem.
Me preenchia.
Agora, me lembro muito bem da sua pele.
Lisa, sem marcas, macia e colada na minha.
Sinto saudades dessa nudez social que nos permitíamos viver quando estávamos nuas sozinhas.
Saudade de te fazer cafuné, de te aconselhar e ouvir seus conselhos.
Acordo sem vontade de fazer nada e lembro que você me dizia para fazer sim.
Pra levantar e fazer.

E em quantas coisas pensávamos fazer...
Mas acabávamos fazendo sempre o mesmo nada,
apenas de peles juntas e cheias de dúvidas.

GH.


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Brisas de ar frio entravam pelas frestas da persiana.
O gato ronronava pesado ao lado.
Faltavam três minutos para o celular despertar na manhã de segunda-feira.

Mesmo sem abrir as janelas, já podia imaginar que o dia estava cinza.
Aquela ressaca de excesso de sentimento já batia forte na cabeça, no corpo, na região do peito.
Não foram muitos copos de tristeza, muito menos de angústia ou desilusão.
Na noite anterior bebeu garrafas de decepção.

A cada gole uma lembrança de situações que poderiam ter sido diferentes se ela tivesse tido a sabedoria de pensar um pouco mais.
Momentos anuviados pela neblina de arrependimento de não ter lembrado de respirar antes de dizer, antes de fazer, antes de permitir.
Quem consegue avaliar a si mesmo, aos outros e aos fatos enquanto ainda ocorrendo?

Experiência.
Será que ainda o que lhe falta era experiência?
Cansada de se permitir viver ao extremo para que não exista aquela vontade incontrolável - e inalcançável - de voltar atrás para corrigir.
Sempre se forçando a mergulhar, mesmo sem estar com fôlego suficiente, ela sempre acaba tendo vontade de voltar e refazer.
Possuída pelo desejo do acerto, ela sempre erra.

Afogada.
Afogada na própria sede de tentar sem o preparo necessário.
Afogada nas inúmeras chances dadas e si e a ti.
Afogada e afogando.
Afogada e ainda mergulhando.

Brisas de ar frio entram pelas frestas da persiana.
O gato ronrona pesado ao lado.
O celular desperta na manhã de segunda-feira.
É outono.

GH.

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Esse teu silêncio ensurdecedor
Escuto no seu olhar
Vejo cada grito
Que esconde por trás
Do olho piscar

Esse teu silêncio ensurdecedor
Que tá no gesto
Na distância
Na ausência de afeto
Quando se levanta


É esse teu silêncio ensurdecedor
Que me rasga
Me rabisca
Me emudece de tanto ouvir
Frases nunca ditas

Esse teu silêncio ensurdecedor
De quem sabe
De quem já sentiu
Que por aqui
Quem calou não consentiu.


GH.

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Acordou, olhou pro lado e deu-se de cara com os familiares e sempre surpreendentes olhos azuis encarando-a. Brilhantes, os olhos piscaram um ‘bom dia’ silencioso e se levantaram.
Os olhos caminharam, com os pés ainda nus, direto para abrir as cortinas do quarto e, como fazia todas as manhãs, admirar o começo de mais um dia cinzento. 

Lamentou o calor se esvaindo do seu lado da cama, mas aceitou a rotina de que a outra sempre se levantava, com seu moletom, para fumar e tomar café na sacada do apartamento que dividiam.
Ainda deitada, admirou-a... 

Os cabelos loiros meio longos, meio curtos; meio lisos, meio cacheados e sempre desgrenhados sob as costas aquecidas pelo seu velho moletom da época da escola.
Os braços apoiados desconfortavelmente no batente da varanda com os pulsos tatuados aparentes pelas mangas frouxas do agasalho.
Tentava acender o cigarro com os fósforos sem muito sucesso.

As pernas delgadas, num tom doce de bege como quem já se bronzeou, mas está a desbotar.
A bundinha, essa mais branca, empinada com a calcinha de bolinhas a aparecer bem de pouquinho por debaixo da grossa blusa que, mesmo longa, só lhe cobria até o início da coxa.
Admirou-a até que
Ah!
Já era hora de passar o café. 

- Vou passar seu cafezinho. Hoje vai sem açúcar de novo? – disse na esperança de que negasse e que ela pudesse, finalmente, parar de tomar os cafés amargos que os olhos brilhantes tanto apreciavam.

- Uhum – resmungou ainda de costas para o quarto, já soltando a fumaça do trago de um marlboro light, e de frente para a revoada de pássaros num vale distante. 

...
Apesar das costas, do silêncio, da distância emocional e do café sem açúcar,
parada ali,
de frente para ela de costas,
ainda no caminho para a cozinha,
concluiu ter uma certeza:
amava-a.

GH.



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Estou bem.
Trabalhando.
Evoluindo.
Fazendo cursos.
Namorando.
Gostando.
Feliz.
Satisfeita.
Mas há instantes.

Segundos que podem ser até minutos.
Em que te sinto em falta.
Fazem anos.
Anos que concluímos sim não haver sentido ou motivo para nós.
Não questiono isso.
Não quero mesmo mais.
Mas há esses instantes.

Que me lembro desses dias distantes.
O que já fiz.
Quem já fui.
O que já sofri.
O que já sobrevivi.
E você está sempre lá.
Nítida.
Inacreditavelmente presente.
Registrada na minha memória. Afetiva.

Te sinto em falta.
Lembro o quanto te admirei.
O quanto me completou. O quanto me ensinou.
E o quanto essa ausência presente segue me fazendo entender.
Entender a beleza de certas tristezas.
O porque de infelicidades.

Concluo que esta nostalgia está misturada com algo mais.
Um amor que segue vivo.
Eu só queria me sentir talvez reaproximada de alguma maneira.
Esse sentimento que renasce em mim a cada instante de lembrança é lindo e ao mesmo tempo destrutivo.
Me dói ao mesmo tempo que me emociona.
Me deprime ao mesmo tempo que me dá gratidão de ter superado.

Mas que desejo forte sinto de reviver.
De voltar a ter aqueles dias de volta.
Não hoje.
Não agora.
Mas como eram.
Quando brincávamos com o sentimento alheio sem perceber que eram os nossos que caminhavam para a falta de rumo.

Mas antes disso.
Antes de sabermos.
Como foi bom.
Que saudades sinto.
Mas o instante termina.
E eu penso quando voltarei a sentir novamente isso tudo com outra.
Mas só senti com você.
Inexplicavelmente.


GH.

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E dançamos como loucos, cantando musicas diferentes das que tocavam mas emendando refrães do som ambiente.
E bebíamos, deus, como bebemos.
Somos sacos furados por onde o álcool passa reto e deixa apenas rastro de intensidade, euforia e excesso de amor.

É amor verdadeiro o que nos une enquanto é noite.
Ou até dia.
Mas desde que seja regado a insanidade.

É amor de irmãos, misturado com uma certa atração sexual.
Tem horas que tenho que largar a roda de eletricidade que produzimos juntos na pista para aliviar no segredo do banheiro da balada toda a tensão sexual que exalamos.

Mas basta o sol raiar ou a primeira mordida num hambúrguer famoso da capital bater em nossos estômagos para assim como a ressaca surgirem todos os ressentimentos mesquinhos do dia a dia.

Diferenças entre empregos, hábitos e gostos musicais quando não embalados pela magia da noite criam catracas invisíveis na convivência diária.

E seguimos meio conhecidos, meio colegas até voltarmos a sermos inseparáveis na próxima festa do próximo fim de semana.

GH.


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Porque a vida sem compromissos é assustadora mesmo.
Assustadora e viciante, tentadora.
Uma vez provada, difícil de resistir.
Uma vez o mergulho dado, as guelras impossibilitam a volta pra leveza do pé no chão e respiro de ar.

Imersa entre águas turvas e cristalinas.
Entre sereias e cardumes irrelevantes.
Nado, nada.

A velocidade tem sido catalisador dessa submersão.
A velocidade com que seres mitológicos aparecem, acontecem.
Aproximam-se em câmera lenta, aconcho, vagaroso, intenso, ardido, molhado.
Partida veloz.
Como peixe se aproxima para morder a isca.

Somos peixe, somos isca.
Nos aproximamos lentamente com cautela para não assustar o alvo – enquanto somos alvo também nos deixamos seduzir pela tranquilidade e malícia dos movimentos ensaiados alheios.
Mordida dada, degustação concluída, partida ágil.

Mar escuro, balanço suave até a aproximação do próximo corpo dançante no mergulho.
A vontade é tamanha que é pra já.
É pra hoje.
O tempo corre diferente dentro desta mistura de fluidos na qual estamos afundados.
O passado está muito longe e o presente já passou.
O futuro é agora e o agora já é antigo.

Quero agora, quero que chegue e me possua, hoje, ontem, amanhã.
Arranque-me do passado do minuto anterior e me arremesse no futuro às horas seguintes do agora.

Quero, queremos, queríamos.
Não guardaremos ressentimentos, muito menos sentimentos.
Não que não os tenhamos.
Temos.
Amamos como nunca antes, amor intenso, verdadeiro, puro e incondicional.
Mas se for pra já, daqui a pouco é passado e não nos prendemos aos passados, aos amores passados.

Queremos intensidade a seguir.
Que siga.
Que sigamos mergulhados.

Deixaremos pra trás, flutuando pelo nosso mar, aquele rastro nostálgico de glitter, gozo, drogas e nomes. Vestígios cada vez mais distantes pelo caminho do rastro, cada vez mais recentes, mais brilhantes e menos admiráveis.
Vestígios de uma vida mergulhada na falta de compromisso.

GH.



2.
Para um trabalho de fotografia eu encontrei mais do que cenas.
Encontrei uma paixão: luz e sombra.





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